Isto é de um tempo em que não havia liberdade, não se sabia onde estava um pide, informador ou bufo à escuta e se em seguida nos levava para a rua do Heroísmo (no Porto) a fim de prestar declarações sobre o porquê de estar a contar em público anedotas sobre o governo, e mais, se se mete em política, professa ideologia contrária e dissolvente, se é um agitador e faz parte de organizações de luta armada, e outras perguntas (mesmo as mais inverosímeis), etc. e tal.
Uma chatice do catano “estagiar” num sítio paredes meias com um cemitério, tendo como director o António Rosa Casaco, quando não se sabe se ali ao lado a “cova” já está aberta! (era o que se dizia em surdina)
(Logo à entrada avisavam: O Rosa Casaco trata do assunto.) (5)
Talvez venha daí o célebre provérbio que diz que cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém e como a imaginação é coisa que nunca faltou aos portugueses, perante a suspeita da presença de um, os mais sabidos diziam: “Está aí um carcará.” Era a PIDE.
E perguntam vocês: como era um carcará, ou melhor, um pide?
Aqui, não um mas dois carcarás no café Majestic:
“A dada altura, Bonga sentiu-se controlado pela PIDE. “Nós viajávamos, havia sempre um ou dois sujeitos que iam e ninguém sabia quem eram. Não era o treinador. Não era o massagista. Não era acompanhante de coisa nenhuma. Não fazia parte do clube. A gente dizia, espera aí, está aí um carcará”” (1 e 3)
A censura controlava jornais e rádios e os jornalistas escreviam com “truques e subterfúgios” na esperança de as notícias passarem. Cartas eram interceptadas e abertas.
No próprio dia 25 de Abril de 1974, dia da revolução, os serviços de censura trabalharam como se fosse um dia normal. É desse dia a “Gravação de telefonemas dos serviços da Censura” do Exame Prévio do Porto e de Lisboa que em baixo pode ouvir. A dada altura, ao minuto 1:01:41, tão caricata é a conversa, a raiar o surreal, o censor, perante tantos cortes, acaba por dizer: “Este Voz Portucalense (…) eh! eh! eh!, era melhor cortá-lo todo.” (2. a))
Se não tem sono, está cansado dos relatos de futebol e da política à Montenegro, ouça porque vale a pena, é uma autêntica obra-prima, pérola da estupidez humana, à boa maneira portuguesa!
E não era só a PIDE. Uma outra instituição, a Legião Portuguesa, além de tropa de choque do regime detinha também um serviço de informações.
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1. a) «“Quando viajava com o Benfica havia sempre um ou dois sujeitos que ninguém sabia quem eram. A gente dizia: ‘está aí um carcará’. Era a PIDE”» – Expresso, Blitz, podcast Posto Emissor, de 2026/05/12;
e b) «Carcará» (“O carcará é facilmente reconhecível, quando pousado, pelo fato de ter um penacho preto sobre a cabeça parecido com um solidéu, assim como o bico adunco e alto, que se assemelha à lâmina de um cutelo; a face, chamada de cera, varia do vermelho ou laranja quando está calmo, ao amarelo quando está irritado, disputando território ou alimento.”) – Wikipedia;
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2. a) «Gravação de telefonemas dos serviços da Censura» – RTP Arquivos de 1974-04-25;
b) «Gravacões da Censura» – RTP Arquivos de 2018-04-28;
e c) «Nomes, cartas, confissões, rotas de vida. Foram parar à PIDE e ficaram lá» (“Nos meses a seguir ao 25 de Abril de 1974, a Comissão de Extinção da PIDE/DGS divulgou que esta dispunha de 2162 funcionários e 20 mil informadores. O número exacto continua, contudo, a ser uma incógnita, devido também, embora não só, ao facto de parte dos registos sobre informadores e agentes ter sido queimado pela polícia no próprio dia 25 de Abril.”) – Público de 2008/03/16;
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3. a) «História da PIDE/DGS» (Polícia Política: Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE entre 1933 e 1945); Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE entre 1945 e 1969); Direção-Geral de Segurança (DGS entre 1969 e 1974) – RTP Ensina, 1990;
b) «O ESSENCIAL SOBRE A PIDE» (“A primeira lógica, com carácter dissuasivo, preventivo e de intimidação, era utilizada contra a população em geral, sobre a qual pairava a ameaça do que lhe poderia acontecer, caso se «metesse em política». Por isso, as detenções e julgamentos eram noticiados oficiosamente na imprensa e a PIDE usou e abusou da prisão preventiva, excedendo o seu prazo legal de seis meses, por seu turno, prorrogável por mais seis meses, mediante pedido à tutela, o Ministério do Interior. Num universo estudado de cerca de 1800 presos, apenas cerca de 15% foram julgados dentro desse prazo e houve mesmo alguns que esperaram na cadeia mais de quatro anos até serem levados a julgamento.” // “A segunda lógica era reservada aos que tinham sido «momentaneamente transviados» e, através do «susto» da prisão preventiva e detenção correcional, sentenciada pelos tribunais plenários, ficariam vacinados para não voltarem a ter a ousadia de atuar contra o regime.” // “Finalmente, a terceira lógica da detenção política pela PIDE prendia-se com a neutralização dos indivíduos presos que estavam organizados, nomeadamente no PCP, e atingiu os seus militantes e em especial os seus funcionários e dirigentes clandestinos.” // “O facto de, em Portugal, as penas não serem de longa duração, como sempre foi apregoado pelo regime, não deve fazer esquecer que muitos detidos políticos acabaram por ficar muito tempo atrás das grades devido às medidas de segurança.”) – Irene Flunser Pimentel (Imprensa Nacional), Fevereiro de 2024?;
c) «HISTÓRIAS DA PIDE, VOLUME 1, QUANDO SALAZAR MANDAVA», de José Pedro Castanheira, Lisboa, Tinta-da-China, 2025 (pdf, incompleto);
d) «Os Ultimos Dias Da Pide parte 1» – RTP2 «in» Arquivo Marxista de 2020/04/29 (YouTube);
e e) «Últimos dias da PIDE - parte II» – RTP Açores «in» Arquivo Marxista de 2020/05/02 (YouTube);
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4. a) «Acabou-se a Legião» (Legião Portuguesa) – RTP Ensina, 1999;
e b) «Legião Portuguesa» – Archives Portal Europe; origem: Arquivo Nacional da Torre do Tombo;
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5. a) «Rosa Casaco» (“Foi um dos principais operacionais da Operação Outono, da qual resultou o homicídio de Humberto Delgado em fevereiro de 1965. Na sede da PIDE, ocupava um gabinete contíguo ao do então diretor da PIDE, Fernando da Silva Pais. // Esteve envolvido no caso Matesa, que Jorge Farinha Piano, presidente do Banco Viseense e seu amigo, orquestrou como esquema de tráfico de divisas provenientes de Espanha, cambiadas no Banco Viseense e depois depositadas em bancos norte-americanos. Rosa Casaco ordenou a três subordinados da PIDE que colaborassem, a troco de comissões, no transporte de divisas de Espanha para Portugal. Assumiu a total responsabilidade pelo sucedido perante a direção da PIDE. Em 1970, por decisão do então ministro do Interior, António Gonçalves Rapazote, foi-lhe instaurado um processo disciplinar, que acabaria arquivado por falta de provas. Foi, assim, despromovido, tendo sido nomeado subdiretor da delegação do Porto, onde permaneceu até à Revolução de 25 de abril de 1974” (...) // “Ainda em abril de 1974, fugiu para Madrid (...)” – Wikipedia;
e b) A PIDE do Porto do António Rosa Casaco: «"As escadas eram um aquecimento para a tortura que vinha a seguir"» – Público de 2006/07/16;
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6. Nota: composição com Nano Banana (Gemini).

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