A lei que proíbe tapar o rosto em locais públicos entrou anteontem em vigor (23/09) e já fez uma vítima: Xerazade*.
Xerazade, apesar das suas origens persas (não é uma árabe), nasceu em Portugal, é portuguesa e católica. Aos Domingos vai à missa e põe um véu preto rendado sobre a cabeça e os ombros – uma espécie de hijab –, como antigamente faziam as nossas avós, e nunca o padre e o sacristão se importaram com isso. Sempre pensaram, e bem: “São gostos”. Trabalha em moda e é uma “avant-garde”**, o que a levou a vestir-se de forma diferente na praia.
O polícia, zeloso, apareceu e decidiu aplicar a lei acabadinha de parir e cortou as unhas rentes.
Mas, se visse melhor, concluiria que não era provável que debaixo da burca a senhora escondesse armas de pederneira, arcabuzes, gadanhas e formões, que nenhum motivo válido havia para identificá-la e multá-la, e que a leitura de “O Amante de Lady Chartelley” já por si despistava uma perigosa extremista muçulmana.
(Mas sempre a pulga atrás da orelha do zeloso mangas de alpaca.)
E a verdade, verdadinha, é que amanhã, por lei, Xerazade não pode sair à rua e muito menos ir à praia.
Mantemos a nossa: cada um anda como quer e o Estado não tem nada a ver com isso.
Legenda: Praia de Olhamar, Norte de Portugal. Xerazade é multada por uso de burquini (burca, óculos de sol e biquini.)
(1. As notícias: a) «"Lei das Burcas". Provedoria de Justiça analisa pedido de fiscalização da constitucionalidade do diploma» – RTP Notícias de 2026/09/23 (notícia actualizada em 24);
b) «"Lei das burcas" já entrou em vigor e prevê multas até três mil euros» – SIC Notícias de 2026/09/23;
e c) «"Lei das burcas" entra em vigor esta quarta-feira. Coimas por cobrir a cara vão até três mil euros» – Diário de Notícias de 2026/09/23;
2. E porque se fala do livro «Lady Chatterley's Lover» (“O Amante de Lady Chatterley”, de D. H. Lawrence, 1928: “O livro logo se tornou notório por sua história da relação física (e emocional) entre um homem da classe trabalhadora e uma mulher da classe alta, suas descrições explícitas de sexo e o uso de palavras profanas então impossíveis de serem impressas.”) – Wikipedia;
3. Há um ano escrevemos: a) «Parlamento aprova proibição de burca. Um Estado distópico.» (2025/10/18);
e b) «A Virgem Maria usava o hijab. Parlamento aprova proibição de burca.» (2025/10/20);
4. «Lei n.º 58/2026, de 24 de agosto» (“Estabelece as regras de segurança e prevenção alusivas à identificação do cidadão a adotar em espaços públicos.”) – Diário da República;
5. Dicionário do texto:
* «Xerazade» (“persas e árabes são dois povos distintos com origens, línguas e culturas diferentes, embora ambos sejam majoritariamente muçulmanos e tenham influenciado-se mutuamente ao longo da história.”) – Wikipedia;
** “avant-garde”: «Vanguarda» (“Nas artes, a vanguarda produz a ruptura de modelos preestabelecidos, defendendo formas antitradicionais de arte e o novo nas fronteiras do experimentalismo.”) – Wikipedia;
6. Nota: composição com Nano Banana (Gemini).)

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