Dissemos aqui há dias, é certo que na brincadeira, que...
anda o país entretido com o abandono do Cristiano Ronaldo da selecção nacional, as suas picardias com o malvado do Jorge Jesus que ainda por cima diz que o Cris é um símbolo da selecção e de Portugal, com o Pedro Proença e as interferências do Montenegro que em vez de trabalhar mete-se onde não é chamado
(crítica, aliás, injusta)
e com a partida do jogador para a Arábia Saudita, com alguns ainda na esperança de que regresse, brevemente, tal qual um dom Sebastião,
e, não satisfeitos com tudo isto, fomos buscar uma história idêntica: a história do “Zé das Medalhas” e do seu treinador “O Homem que não dá tréguas”,
em que o Zé via os milhões sumirem por abandono das marcas e dos patrocínios e, no entanto,
nada mais errado!
I
Deixemos o Zé das Medalhas e foquemo-nos no Cristiano Ronaldo:
1. O abandono do Cristiano Ronaldo do estágio da selecção nacional tem um impacto muito mais severo para a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e para a “Marca Portugal” do que para o próprio Cristiano Ronaldo e a “Marca CR7”.
2. Ronaldo já demonstrou intenção de cumprir eventuais castigos e procurar uma saída digna que servirá para selar o seu legado histórico sem manchar a narrativa de “herói nacional”, protegendo o valor comercial da sua marca no mercado, que depende das suas próprias redes sociais, dos seus negócios privados e de contratos que estão assegurados e não vinculados à selecção.
3. Os riscos a longo prazo são significativamente maiores para a FPF do que para a marca CR7.
4. Embora os contratos actuais de patrocínio da FPF estejam amplamente salvaguardados até 2030, sem Cristiano Ronaldo Portugal continua a ser uma selecção talentosa mas perde o estatuto de potência a nível mundial, baixando no “ranking”.
5. Vários patrocinadores podem exigir renegociações se sentirem que os pressupostos comerciais mudaram radicalmente, visto que as marcas internacionais investem para ter acesso à imagem de Ronaldo e, não a tendo, é natural que a atracção de investimento estrangeiro diminua no futuro próximo.
6. O verdadeiro desafio estratégico e financeiro reside agora do lado da Federação, que já sentiu o impacto nas plataformas digitais, e terá agora de aprender a vender o produto “Selecção Nacional” sem o seu maior embaixador económico.
II
Implicações que extravasam o desporto
1. A crise em torno de Cristiano Ronaldo tem implicações que extravasam o desporto e tocam a economia nacional, que justificam que o Governo tenha motivos fundados para acompanhar a situação com preocupação. O jogador é um activo económico vital para a recuperação externa do país.
2. “Muitos só conhecem Portugal por causa de Cristiano Ronaldo” e o seu afastamento constitui uma perda de atractividade reputacional para o país.
3. Com Cristiano Ronaldo fora da selecção, tanto a FPF como a projecção internacional do país “valem muito menos”. O interesse global por conteúdos, notícias e eventos ligados a Portugal sofre uma quebra imediata.
4. Ronaldo funciona como um motor de promoção turística. O litígio dele com as estruturas nacionais enfraquece as campanhas internacionais baseadas na associação da hospitalidade e sucesso à figura do astro do futebol.
5. A ausência do capitão Ronaldo em jogos oficiais e amigáveis prejudica o valor dos direitos de transmissão televisiva internacionais e diminui o fluxo de adeptos estrangeiros que viajam propositadamente para ver a selecção jogar.
6. Estando Portugal na rota da organização do Mundial de 2030, Ronaldo é a figura de cartaz natural para atrair grandes investidores internacionais, patrocinadores multinacionais e dinamizar infraestruturas no país. Uma ruptura permanente com a selecção enfraquece o trunfo comercial e diplomático mais forte que o país detém para potenciar as receitas extraordinárias previstas para aquela organização.
7. A garantia dada hoje por Ronaldo afasta o cenário de uma reforma definitiva e amarga, abrindo a porta a um entendimento futuro que proteja os interesses financeiros do país.
III
Hierarquia do impacto e perdas financeiras potenciais
1. A “Marca selecção” (FPF) tem um risco considerado de alta vulnerabilidade de quebra a médio prazo na ordem dos 25% a 40%. Embora os contratos vigentes estejam blindados até 2030, a capacidade de negociar novos patrocínios, as receitas extraordinárias de digressões e os contratos de direitos de transmissão televisiva internacionais estão sob risco de desvalorização sem a presença de Cristiano Ronaldo em campo.
2. A “Marca Portugal” tem um risco considerado de moderada vulnerabilidade de impacto indirecto na projecção externa, em termos turísticos, na ordem dos 5% a 15%. O impacto não se traduz num perda imediata de facturação mas sim numa quebra de projecção mediática, atractividade turística e capacidade de levar a cabo investimentos estrangeiros privados na fase de promoção do Mundial de 2030.
3. A “Marca CR7” tem um risco considerado de baixa vulnerabilidade por ser uma marca completamente globalizada e desvinculada do futebol internacional português, com receitas provenientes de contratos e negócios noutras áreas que se mantêm intactos, ou seja, um impacto financeiro marginal menor que 2%, resultado de um recuo imediato (e temporário) nas audiências das suas redes sociais locais no mercado português.
4. A FPF ficou privada do seu elemento mais valioso, enquanto a “Marca CR7” manteve o seu modelo de negócio global que também opera no mercado asiático e do Médio Oriente.
IV
Subordinação do poder político ao poder económico
1. No capitalismo actual, o governo já não actua como regulador social mas sim como um zelador da “reputação de mercado” do país. Quando o Estado intervém na esfera desportiva para proteger a imagem de Cristiano Ronaldo está a agir para salvaguardar um activo intangível que exporta: a “Marca Portugal”.
2. Tradicionalmente, o Estado detinha o monopólio da representação externa. Hoje, um indivíduo (com a “Marca CR7” que além do seu muito valor tem uma audiência digital enorme) possui mais poder de influência e diplomacia que um governo. O poder político subordina-se porque reconhece que o seu próprio poder de atracção económica depende do consentimento e da saúde financeira da supermarca.
V
Interferência política nas instâncias desportivas
1. A FPF é juridicamente uma pessoa colectiva de direito privado, sem fins lucrativos, com estatuto de utilidade pública desportiva que na prática opera como um ministério informal da propaganda e do turismo do governo. A pressão política exercida sobre a FPF e o seleccionador Jorge Jesus para resolver o diferendo com Ronaldo demonstra que o critério puramente desportivo (disciplina, táctica, autoridade do treinador) é secundário quando colide com as metas macroeconómicas do país (como a viabilidade comercial do Mundial de 2030).
2. O poder político interfere porque o futebol é a ferramenta mais eficaz para a coesão social e a anestesia política a curto prazo. Garantir que a selecção mantém a sua estrela máxima não visa apenas ganhar jogos; visa garantir as audiências televisivas, o consumo interno de bens associados ao futebol e a estabilidade emocional de uma população que consome o desporto como a sua principal forma de catarse colectiva.
Legenda: Cristiano regressa à selecção como Consultor Estratégico, tendo como adjunto Jorge Jesus.
VI
Análise geral do capitalismo actual
1. O desporto foi transformado numa indústria de entretenimento puro; pela lógica de acumulação de capital, Ronaldo já não é apenas um trabalhador assalariado de elite; ele é o proprietário dos seus próprios meios de produção (as suas redes sociais, marcas, media, hotéis e clínicas).
2. Se o mercado português reage mal e a “Marca CR7” sofre uma quebra de apenas de 1% a 2%, a marca compensa imediatamente a quebra expandindo a sua operação no Médio Oriente ou na Ásia através do Al-Nassr ou de contratos digitais. O capital é fluído, não tem pátria e é imune a considerações morais.
3. O valor de Ronaldo não reside na sua capacidade física de chutar uma bola aos 41 anos mas sim na sua capacidade de gerar atenção (likes, visualizações, tendências). No capitalismo actual a atenção é a moeda mais valiosa do mundo e quem controla o monopólio da atenção – como CR7 – dita as regras do mercado e do próprio Estado.
(1. O PODCAST: «Caso Ronaldo: O desafio da gestão das marcas» – Jornal de Negócios de 2026/10/06;
2. O Comunicado: a) «Cristiano Ronaldo explica decisão a abandonar estágio: leia o comunicado na íntegra» – CNN Portugal de 2026/10/06; b) «Leia o comunicado de Cristiano Ronaldo na íntegra» – SIC Notícias de 2026/10/06; e c) «Ronaldo pede desculpa e mostra-se disponível "como sempre" para ganhar pela seleção» – RTP Desporto de 2026/10/06;
3. Já agora, e porque se fala da «Copa do Mundo FIFA de 2030» (Campeonato Mundial de Futebol FIFA de 2030. Será disputado em Espanha, Marrocos e Portugal) – Wikipedia;
4. Nota: composição com Nano Banana (Gemini).)
