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Wednesday, July 23, 2025

Andam extraterrestres em Santo André de Ézaro

Os jornais deram a notícia: uma bola de fogo caiu ontem no mar, ao largo de Santo André de Ézaro. Pusemo-nos à coca e hoje à noite fotografamos o que nos parece ser o periscópio da nave. Ou será o extraterrestre?


(1. a) Santo André de Ézaro é uma localidade fictícia, mas se existisse seria algures na Costa da Morte, na Galiza, Espanha; o nome também alude ao romance de Camilo Jose Cela, “A Cruz de Santo André”; 2. Já agora: a) «Camilo Jose Cela» – Wikipedia; b) «La cruz de San Andrés» (A Cruz de Santo André), 1994 – goodreads; e c) «Ézaro» (Galiza, Espanha.) – Wikipedia; 3. E o que é um «Periscópio»? – Wikipedia.)

Tuesday, August 27, 2024

Da importância e valor relativo das coisas. O azulejo.

Nas folhas dos jornais que estavam a calafetar as portas da casa dos Castelares para que não entrassem as baratas estavam inúmeras notícias, de vários anos. Isto foi quando se mudaram. 

Dentro da casa, para além das baratas, que eram às centenas, restavam vestígios dos anteriores habitantes: um par de botas da tropa e, entre os cacos, um curioso azulejo com uma etiqueta que rezava assim: “De ‘casa que se encontra em domínios próprios’ foi recebido, por herança, este azulejo. Por não se encaixar na tradição familiar, conclui-se que terá sido oferta de um caseiro. Sem interesse.

Não pensaram assim os Castelares e guardaram o azulejo.





(Composição com filtro do Krita (Website oficial) e imagem disponível na Web: o moinho)

Friday, March 11, 2022

Nas folhas dos jornais que estavam a calafetar as portas da casa dos Castelares...

Este texto faz parte de uma versão mais completa de “Nas folhas dos jornais que estavam a calafetar as portas da casa dos Castelares para que não entrassem as baratas estavam...”. O livro de estilo é o de Camilo José Cela. Aqui fica a segunda parte, sujeita a revisão quando se juntarem as partes.

II

Nas folhas dos jornais que estavam a calafetar as portas da casa dos Castelares para que não entrassem as baratas estavam, entre outros anúncios, pasta medicinal couto, há um século a cuidar da sua boca, petinga, Ala Arriba, sardinella longiceps (70%), óleo vegetal (29%), piri-piri e sal, e, como não podia deixar de ser, o desbaratizante matabarata, mata também ácaros, piolho da criança e pulga do gato, é um erro dar banho aos gatos, escreve na sua crónica semanal dona Caralhuda de Valadouro, Carmela Conacha Brava discorda, mais sobre estas senhoras nas pp. 10, 110 e 152 de A Cruz de Santo André, 1994, Camilo José Cela, 2003 Bibliotex Editor, para o Diário de Notícias, as baratas há quem as coma, também há quem coma a Caralhuda e a Conacha, mas isso são outras histórias, continuando, chineses, coreanos, e coreanos também são os portugueses que vendem em Porriño, vem n'A Cruz de Santo André, p. 130, edição já citada, e ainda tailandeses são grandes apreciadores de baratas, quando fritas é de comer e chorar por mais, uma barata bem preparada deve ficar estaladiça como o leitão da Bairrada.

Não hei-de morrer sem degustar uma barata com 320 milhões de anos, disse a Carmela Conacha Brava, mas caso aqui o primo da Caralhuda de Valadouro carregue no botão nuclear e nos mande a todos para os anjinhos pode bem acontecer que venhamos a ser pasto e repasto de uma, de modo que o melhor é esquecer o fóssil e berrar abaixo as baratas!, abaixo barata-americana, barata-alemã, barata-australiana, barata-oriental, barata-de-Madagáscar!, abaixo barata marrom fuligem ou negra ou barata verde e amarela, cor de bandeira!, baratas só mesmo com matabarata em cima do lombo, e o mesmo para as centopeias.

Baratas no Parlamento levam à suspensão da comissão de Trabalho, isto foi título de imprensa em 17 de Maio de 2018, já ninguém se lembra mas na altura deu muito que rir, a Carmela Conacha Brava acha que o amor devia ser explicado nas escolas através de circuitos electrónicos, com contadores e flip-flops.

Não foi a 17 mas sim a 13 de Maio de 1917, pastoreavam na serra d’Aire três pastorinhos quando relampejando lhes apareceu por cima de uma pequena azinheira uma rapariga com um metro e dez de altura, de uma beleza nunca vista e alva como uma nuvem, unia-se por um feixe de luz a uma nave que depois partiu vertiginosamente com a imagem dentro, sobre estes factos dona Caralhuda de Valadouro acha que se trata do comandante Dan Dare, vem no Falcão, formato grande, saíram 82 números, e que o holograma teve por finalidade fazer crer aos pastorinhos que a senhora que lhes falava era a senhora do Rosário, Carmela Conacha Brava fala da grande guerra e dos bolcheviques e que, por cá, o clero andava de candeias às avessas com as autoridades republicanas por causa da lei da separação, festejava-se um dia santo, dia muito importante para a fé, e que o bispo, tendo conhecimento dos factos do arbusto, disso se aproveitou mandando um prelado ao lugar, a fim de espiar e conspirar, coisa que não correu lá muito bem, foi preciso arregimentar alguns nobres descontentes para malhar nos maçons e derrubar o Afonso, ateu feroz, e umas tantas senhoras da alta sociedade dadas ao vinho, dona Caralhuda de Valadouro, que também sabe destas coisas, acrescenta que o cardeal, mais tarde em resposta a acusações de fraude, disse que os acontecimentos do arbusto foram impostos à igreja, o que talvez seja verdade atendendo à participação e ao empenho de um certo advogado, ferveroso católico e miguelista, grande proprietário, irmão e ministro de ordens e conferências religiosas, mais tarde sidonista, e interessado na manha, o facto é que Deus andava muito triste com a falta de fé dos portugueses, concordando, sim, com as teses do clericalismo neotomista e da teologia positivista, cuja ideia principal era que o milagre é uma interrupção momentânea das leis da natureza por vontade Dele, mas dona Caralhuda de Valadouro não arreda pé da sua teoria do Dan Dare e acha um disparate a ideia de unir os portugueses pelo arrependimento e a oração ou pôr no mesmo saco a aparição e o militante católico e beato Nuno de Santa Maria, o Nuno Álvares, o da batalha de Aljubarrota, coisa que, disse, mais não foi que esperteza saloia do presidente do conselho que se mancomunou com o cardeal, esta e outras coisas vinham descritas nas folhas dos jornais que estavam a calafetar as portas da casa dos Castelares para que não entrassem as baratas e uma, assaz curiosa, com data de 19, dava conta da revolta da batata, eram tempos de fome de cão, vem na Ilustração Portuguesa, n.º 589, de 4 de Junho de 1917, pp. 448-449.

As baratas declararam guerra à humanidade, incluindo gente de hábitos talares, invadindo casas, bibliotecas e conventos, as cozinhas, os armazéns, cantos e buracos esconsos, isto é coisa que vem de há muito tempo, certo é que as baratas são mal vistas, tanto é assim que duas baratas que subiam uma colina foram abatidas a tiro de fisga por dois frades, veio no Novidades e fez furor.


Doutras vezes, os Castelares: «Da importância e valor relativo das coisas. O azulejo.», 2024/08/27; «Uma bola vinda do nada», 2019/08/12.

Monday, April 06, 2020

Uma questão de memória

Nome: Léon Fremont. Dos restos encontrados foi possível identificar parte da mauser e uma bota francesa ainda com os ossos e a meia dentro. O crânio apresentava a marca típica da metralha e não restavam dúvidas que essa fora a causa da morte. 


Posso ficar com os restos?, pode mas tem que assinar estes papéis, e é só assinar?, sim, é só assinar, admira-me o seu interesse por estas coisas, é o interesse histórico, sabe?, o meu bisavô esteve um século de baixo dos escombros e quero tirá-lo do anonimato e depois fazer-lhe uma festa, então você é Fremont, sim, sou, e acha que a partir do crânio conseguem reproduzir-lhe o rosto em 3D?, sim, se me disser a cor dos olhos, eram azuis acho eu, e quanto aos fragmentos aqui à volta também os vai querer?, se não forem significativos acho que podem ficar onde estão, estes aqui talvez tenham algum interesse, são do casco de um navio francês, sinceramente não sei como vieram cá parar, mas se são significativos levo-os, bocados de um navio dão outro valor à história do meu bisavô. 

(segundo o Livro de Estilo de Camilo José Cela «in» Madeira de Buxo (Madera de Boj, 1999). Baseado num documentário do canal História sobre a Grande Guerra (1.ª Guerra Mundial), de 2020/04/04.)


(1. A propósito: «Primeira Guerra Mundial» e «Mauser» (fabricante alemã de armas); 2. E, já agora, «Camilo José Cela»)

Wednesday, September 04, 2019

Um museu no fundo do mar...

Conheço um tipo que pegou nos bens da família e doou-os a um museu no fundo do mar. A ideia era que os herdeiros pegassem em barbatanas e o fossem visitar e não se pusessem em desacordo em vida. Uns morreram prematuramente e os que ficaram nunca lá foram. De uma forma ou de outra todos acabaram deserdados. Quanto ao museu ficou esquecido no fundo do mar e só de tempos a tempos uns mergulhadores lá vão mas para o surripiar. Do dador, que já abalou deste mundo, ninguém fala e do tesouro apenas dizem que é louça da Companhia das Índias e que o melhor é que lá fique.














Os únicos residentes de que se tem conhecimento são hoje fantasmas de gelo - os marinheiros -, um gato, um cachorro Terra Nova chamado Neptuno e um macaco de nome Jack, também eles fantasmas. O museu, segundo a vontade do Destino, foi inaugurado a 12 de Setembro de 1846 e 129 marinheiros da Marinha Real Britânica pereceram no mar gélido, felizes e indiferentes à morte enquanto o museu afundava, a tocar gaita de foles (2).

Juntaram-se-lhe recentemente aqueles bens de família.




(1. Imagem retirada do vídeo "Parks Canada Guided Tour Inside HMS Terror" (2'46''), a partir do artigo «The H.M.S. Terror Sank in the 1840s. See What It Looks Like Now.» - New York Times de 2019/08/30; 2. Paródia a Madeira de Buxo (Madera de Boj (1999)), de «Camilo José Cela» - Wikipedia.)

Monday, August 12, 2019

Uma bola vinda do nada

Aconteceu na Casa dos Castelares. Estavam ainda no início as mudanças, pouca coisa, uma mesa e um candeeiro. Mas, vá-se lá saber como, uma bola vinda do nada, a apitar feita um carro, atirou-se à mesa e fez cair o candeeiro. Sorte para os Castelares que o tinham comprado numa loja dos trezentos e não era de partir. Os filhos logo disseram que nunca tinham visto tal bola, nem mais gorda! "Depois falamos", disse o pai Castelar.




(Nota: o vídeo é de Março de 2014 e foi realizado num curso de 3D Studio Max, ao qual se acrescentou agora a buzina de um carro e outras mais se acrescentarão...)


Friday, January 29, 2016

O faroleiro

Cornecho também teria gostado de saber geometria mas isso fica para os vigilantes dos faróis…

Farol! Farol!
Que guarda um faroleiro.
Aqui nada acontece
Só este luzeiro.
Com mil cabrestantes,
Que raio de emprego!

Tanto céu
Tanto mar
E sem poder navegar…
Onde está o sextante?
Diz-me tu, ó musa!
O que é isso do quadrado da hipotenusa?

Tanto mar
Tanto céu
Por acaso agora até ia um toucinho-do-céu…
Há que levantar
Ir lavar a cara
Dar corda ao farol.


(1. «(…) Cornecho gostava de falar latim mas não precisava dele para nada, os sacristães não têm de ter demasiadas necessidades nem caprichos caros porque para o seu ofício basta a humilde paciência e a resignação, os sacristães devem ser bem conformados e de natureza sóbria, Cornecho também teria gostado de saber geometria mas isso fica para os vigilantes dos faróis, para os poetas e para os músicos de precursão e de sopro, os de cordas deixam-se levar mais pelo instinto porque a mão segue sozinha, a padroeira dos músicos é a Santa Icía a quem martirizaram de uma maneira muito desconsiderada, o verdugo não lhe acertara bem e deu-lhe os três golpes de espada que a lei permitia (…)» - Madeira de Buxo (Madera de Boj, 1999), de Camilo José Cela;

2. «Sacristães vs. Sacristãos» (no texto em cima) – Ciberdúvidas da Língua Portuguesa;

3. Dicionário e geometria: a) farol: torre ou qualquer construção elevada ao sopé do mar, em cuja parte mais alta se instala um foco luminoso ou facho, para que o vejam de longe os navegantes e lhes indique a paragem, a entrada do porto ou os rochedos, escolhos, etc., da costa que devem evitar; b) luzeiro: aquilo que espalha ou irradia luz; clarão, brilho; c) “com mil cabrestantes!”: expressão típica de um lobo-do-mar (marinheiro velho e experimentado nas lides do mar); e “cabrestante”: sarilho de cilindro vertical que, a bordo de navios, serve especialmente para, por meio de alavancas, exercer tracções em sentido horizontal; veio que se move horizontalmente sobre si e no qual se envolve a amarra da âncora quando se eleva; d) sextante (termo náutico): goniómetro de mão, insensível à instabilidade de plataforma, destinado a ser especialmente empregado entre os pontos da esfera celeste, entre estes e o horizonte ou entre pontos da superfície da Terra, baseado essencialmente no princípio da reflexão dupla; e) Musa: fonte de inspiração de um poeta; mulher que inspira um poeta; f) o teorema de Pitágoras: o quadrado da hipotenusa é igual à soma do quadrado dos catetos; g) toucinho-do-céu: nome de certo doce fino em que entram ovos e açúcar – de comer e chorar por mais!)

Thursday, January 14, 2016

O fantasma de Rosa Bugairido

«(…) Rosa Bugairido suicidou-se atirando-se ao mar, quando ia no ar nem lhe deu tempo para pensar em nada porque os ouvidos começaram-lhe a zumbir, isto não é mais do que uma suposição, todos nós gostaríamos de conhecer o mistério da morte, o que se passa é que Deus é muito calado e não costuma dizer as coisas aos homens, provavelmente é isto que é o livre arbítrio e todos nós nos queimamos com a dúvida como um prego a arder (…), o meu tio Knut Skien caça o rorqual com artes antigas e faz experiências de física recreativa queimando fósforos debaixo de água.» - Madeira de Buxo (Madera de Boj, 1999), de Camilo José Cela.

É o fantasma de Rosa Bugairido, que agora aparece vestida de noiva.



Rosa Bugairido suicidou-se, já se sabe, e o Marreco abandonou a casa, anda a passear pelo mundo e nunca mais foi o mesmo, não tem descanso, constantemente vê Rosa Bugairido, quer dizer, o seu fantasma, a última vez que a viu estava vestida de noiva mas ninguém acreditou, disseram que era coisa da imaginação, remorsos, o que explicava tudo, mas o Marreco não desistiu e provou que tinha razão, aí estava, em papel, o fantasma de Bugairido, vestida de noiva como no dia do seu casamento, a coisa bate certo, pois é verdade que alguns mortos, e sendo mulheres ainda mais, são muito sentimentais. (segundo o Livro de Estilo de Camilo José Cela)


(1. Pormenores do suicídio de «Rosa Bugairido» (neste «blog»); 2. «Camilo José Cela» - Wikipedia)

Wednesday, August 19, 2015

Rosa Bugairido



(1. «Rosa Bugairido suicidou-se há coisa de três anos atirando-se ao mar da falésia do cabo Vilán, um olho e parte dos miolos ficaram colados aos percebes da maré baixa, o cadáver levou-o o mar para a grande praia de Traba, onde esteve encalhado há já alguns anos um raro cachalote com cornos, ao norte da ponta de Laxe.» - «in» Madeira de Buxo (Madera de Boj (1999)), de Camilo José Cela; 2. A propósito: «Camilo José Cela» e, já agora, «Pollicipes pollicipes» - Wikipedia; 3. Composição, em cima, a partir de imagens disponíveis na Web: no caso, o inspector Clouseau.)