Saturday, September 20, 2014

Wednesday, September 17, 2014

O Soldador e a Procissão

(Pequena peça de teatro)

As cenas ocorrem em dois andares de garagem

Personagens:

O Que Sonha
O Soldador
A Senhora da Limpeza do Escritório
A Dactilógrafa do Escritório (também chamada de A Criada)
As Duas Tias Queimadas
O Homem

Além das cinco mulheres – e aqui se inclui a Tia Maluca (que só é referida) –, mais duas figurantes para a cena da Procissão.

Os personagens apresentam-se um a um no palco, pelos nomes (eu sou… nós somos…), e saem.

A acção, propriamente dita, é assim, em bruto:

1.º Acto – No andar de baixo

O Soldador está a soldar um arco para um sifão. O ferro está incandescente, em brasa. Ao lado dele, O Que Sonha elogia-o: – Quem sabe, sabe!

Um e outro observam o resultado da operação:

– Ficou mais largo – diz O Que Sonha.

– Não interessa… – respondeu O Soldador.

– O que interessa é o que vai por cima – diz O Que Sonha completando-lhe o raciocínio. Aparte para o público: – É a sanita.

2.º Acto – O Que Sonha e o Soldador estão agora no andar de cima.

Por baixo deles, por uma falha na laje, pode ver-se o arco para o sifão ainda incandescente. Observam. A coisa parece estar a correr bem mas O Soldador bate com o pé no chão e o arco em baixo desprende-se da soldadura. O Soldador está muito desiludido. Saem do lugar e pelo caminho encontram um arco mais pequeno.

– Isto é que é um arco! – diz O Que Sonha. – Um arco moderno, o outro parecia da primeira grande guerra, melhor, da segunda grande guerra… – explicou-se melhor: – os da segunda grande guerra são mais antigos porque são nazis.

3.º Acto – Um facto novo se dá:

Passa uma procissão (o Soldador desaparece de cena). É uma procissão de mulheres com vestidos longos. A sombria Senhora da Limpeza do Escritório vem atrás; no meio vem A Dactilógrafa do Escritório (a única de vestidos floridos); as restantes mulheres não se percebe quem são, vê-se que são esguias e que têm panos na cabeça e que vêm com malas na mão.

– Suponho que é a criada – diz O Que Sonha para A Dactilógrafa do Escritório.

– Sou. Sou – diz A Criada. Aparte para o público: – Na verdade sou A Dactilógrafa do Escritório.

– A criada é mais bonita que as patroas – solta para o ar, em voz alta, O Que Sonha.

– É o neto – diz A Criada dirigindo-se a O Que Sonha. Com a palma da mão cobre a boca do lado do interlocutor e segreda para o público: – Sou eu a adivinhar…

– Há aí uma tia maluca – responde O Que Sonha.

– Há. Há – confirma A Criada. A Criada, que na verdade é A Dactilógrafa do Escritório, não pára, segue na procissão. Inclina-se ora para a esquerda ora para a direita e lança beijinhos para o ar como se ali houvesse janelas e gente às janelas para os receber. (destaca-se também porque é a única florida! – nunca é demais dizê-lo.)

– Essas aí são As Minhas Tias Queimadas – diz O Que Sonha. As senhoras estão de frente, lado a lado, e vê-se que têm as faces queimadas. – Foram queimadas no tempo da Inquisição – esclareceu a rir O Que Sonha.

– No tempo da Inquisição – confirma A Criada também a rir (que é, já sabemos, A Dactilógrafa do Escritório).


















Falso 4.º acto (e último) – Os actores param.

Pára a procissão. As caras de riso ficam suspensas, como estão, como numa fotografia. A luz amortece no palco. Entretanto um foco de luz surge e segue O Homem que entra em cena e se põe em primeiro plano. O Homem dirige-se à assistência:

– Bem. E agora? Resta dizer que são sete e onze da manhã e que O Que Sonha foi novamente dormir. Não se sabe se conseguiu retomar a meada da história. Mas nós sabemos, por experiência própria, que isso raramente acontece e, se acontece, não tem os resultados que esperamos. Não é assim? – interpela a plateia.

(ligeira pausa)

E alto e incisivo: – Espero que tenham gostado!

(cai o pano)

(convém que haja palmas para que os actores subam de novo ao palco, a agradecer, satisfeitos.)


Sunday, September 07, 2014

Desempregados (texto de um malandro)

Zig e Zag falam dos desempregados (cartoon):















Vem a propósito: não há muito tempo, o autor deste «blog» encontrou num alfarrabista, dentro dum livro de Alvaro Mutis – A Neve do Almirante –, um manuscrito (não assinado) deveras curioso que guarda religiosamente: manuscrito dentro dum livro que é a história doutro manuscrito dentro doutro livro. – Coincidências! Reza assim:

«Texto de um malandro

O homem não foi feito para trabalhar. O homem foi feito para estar de barriga ao sol, comer umas ameixas, fazer amor, gozar as serranias, os rios e os mares e os pomares.

Nada melhor que andar por aí, a dar pontapés às pedras e a puxar os rabos das sardoniscas. Há que ver a vida do ponto de vista de um combate com um bom prato de comida do qual sucede o arroto, cuspir pevides, fazer filhos, escrever um livro e plantar uma árvore. E ir à bola! – esquecia-me.

Por causa desta minha teoria o meu pai deixou de me falar. Disse-me: «Não falo com malandros!» É vê-lo: que ventas! e eu feliz da vida!

O trabalho – principalmente o assalariado (na verdade só há trabalho assalariado) – escraviza as almas, torna-as torpes, cria maus hábitos, e quando menos se espera está um tipo no fim da vida, reformado, a jogar cartas no jardim com os amigos e os pardais por cima a rirem-se de nós. 

"Estou agora a passar os melhores anos da minha vida" – ouvi isto de uma viúva; dei-lhe razão e hoje estamos juntos a gozar à tripa-forra. O tipo era administrador de um banco que agora faliu!

Se a filosofia nasceu do ócio nada melhor que continuar nela.»


(1. Em todo o caso aqui fica o «MoviME - Movimento Mais Emprego» (vamos ver no que isto dá...); 2. Por falar em desemprego (e lá fora): «Números do emprego nos EUA surpreendem pela negativa» - Público de 2014/09/05; 3. Não podendo esquecer «Álvaro Mutis» - Wikipedia e «A origem da expressão «gastar à tripa-forra»» -Ciberdúvidas da Língua Portuguesa)

Wednesday, August 27, 2014

Os irmãos Dalton agradecem!

Zig e Zag falam de um modelo de pijama para crianças lançado pela Zara (cartoon):

















(1. A notícia: «Zara retira pijama que lembra perseguição aos judeus» - Público (life&stylemoda) de hoje; 2. A propósito: «Lucky Luke» e «Irmãos Dalton» e «Quadrilha dos Dalton» - Wikipedia)

Sunday, August 17, 2014

Conversa de morcegos




(1. A propósito: «Morcego» - Wikipedia; 2. Ainda a propósito: uma estranha floresta de neurónios – neste «blog»; 3. Dogma: uma verdade absoluta que não admite discussão; contrariamente ao dogmatismo, o cepticismo afirma a incapacidade de se atingir a verdade absoluta e, por isso, a atitude certa é a da dúvida; 4. Nota: morcegos retirados do site «?»)

Saturday, August 16, 2014

A despedida




«Post» anterior: «Em caso de agressividade dos indígenas regressar, de imediato, ao cubo!»


(1. O problema do excesso de velocidade no espaço sideral já foi aqui avançado. Ora vejam: «Colisão de «Fangios» pelas curvas e contracurvas do espaço interplanetário»; 2. Nota: composição a partir de imagens disponíveis na Web, nomeadamente a imagem da NASA mostrada na notícia do Público de 2014/08/01: «Portugal visto à noite do espaço é assim»; quanto às naves estas são desenhos do autor.)

Friday, August 15, 2014

Há uma floresta invisível no céu...

« Sabes tu? – dizia a alma dele.  No céu há uma floresta invisível de que apenas se vêem as pontas das raízes que são as estrelas. (...)»  Eça de Queirós, Prosas Bárbaras, no conto “O Senhor Diabo”.


















(1. «Eça de Queirós» - Wikipedia; 2. Quando a floresta se moveu: «Diáspora vegetal», neste «blog»; 3. Composição com recurso a imagens disponíveis na Web: a árvore é retirada do filme "Avatar".)

Monday, August 04, 2014

Em caso de agressividade dos indígenas regressar, de imediato, ao cubo!



«Dia 21. Quatro da manhã. Ainda estou acordado. De repente, fui distraído por algo que se passava lá fora, vindo dos quintais, nas traseiras da casa: um estremecimento – som de restolho, que não havia, levado por vento súbito – que tal como veio logo se foi, caindo o silêncio; nem animal se ouviu. Pela janela fui então testemunha de um espectáculo deslumbrante que passo a descrever e se me perguntarem há quanto tempo “aquilo” ali estava afianço-vos que não sei responder:

As naves, brancas, não muito luminosas, baças até, são às dezenas e parecem cair como lágrimas, suavemente, dum enorme cubo de uma beleza indescritível: um espaço cheio de ocres vermelhos e verdes azulados, que alternam entre si espaçadamente, com uma espiral ao centro e dentro desta um astro gigantesco, de um verde-claro, luminescente. Perante a desproporção de tamanhos é difícil calcular as dimensões e distância a que estão estes estranhos objectos. Enquanto me extasio diante do espectáculo prodigioso – que durou no total uns três minutos, se tanto –, um zunido estranho quebrou novamente o silêncio da noite e pude ver que desta feita as naves invertiam a marcha e recolhiam àquele universo paralelo (se assim se pode chamar), velozes desta vez, perdendo-se dentro dele, enquanto as luzes ocres vermelhas e verde-azuladas bailavam precipitadamente dando a impressão de que o cubo girava sobre si; e vi-o depois a desfalecer-lhe as cores; não saindo do lugar – ou assim parecia – foi perdendo tamanho e ganhando uma luz dourada, que era cada vez mais intensa, tomando uma forma ligeiramente oblonga, até se tornar do tamanho de metade da Lua quando cheia; subitamente, e sem sair do lugar – ou assim parecia, como disse –, reduziu-se a um ponto de luz e lançou-se vertiginosamente no céu abrindo aquilo que parecia duas asas laterais – da mesma luz dourada –, como se fosse o traço de um cometa, que não era, em direcção às estrelas, perdendo-se nelas: e, aqui, foi o tempo de um pestanejar de olhos.» - Diário de Dan Dare.


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(1. A propósito: «Universo paralelo (ficção)» - Wikipedia; 2. Quando o Zig viajou numa bolha de sabão pelo lavatório abaixo (neste «blog»); 3. Aqui pode ver Dan Dare (coronel das forças intersiderais da ONU), que não é o desta história, e ver o seu principal inimigo, o terrível e manhoso venusiano Mekon, bem como recordar a Revista O Falcão, (1.ª série - 82 números):  a) «Heróis Inesquecíveis (18) - Dan Dare» - «in» BDBD - Blogue de Banda Desenhada; b) «baú das revistas: O Falcão» - «in» colecionador de bd; c) «O Falcão - série I - Nº 1» - «in» Mania dos Quadradinhos)

Um banco bicéfalo

Zig e Zag falam do Banco Espírito Santo, ou melhor, do Novo Banco/BES (cartoon):

















(1. A notícia: «BES recebe injecção de 4900 milhões de euros e passa a chamar-se Novo Banco» - Público de ontem; 2. «Três perguntas que ninguém parece querer fazer sobre o “novo banco”» - Opinião no Público de Francisco Louçã (ontem); 3. «Uma solução engenhosa e vergonhosa» - Opinião no Público de Pedro Sousa Carvalho (hoje))