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Thursday, July 30, 2026

Vandalismo ou encenação: o que se passou no gabinete de André Ventura

A porta que Ventura deixou aberta, a empregada, o deputado madrugador e o fantasma de Rosa Bugairido”, filme a estrear em breve nos cinemas.

Sinopse: Um homem sai de um gabinete e não fecha a porta. Até à chegada, no dia seguinte, da empregada de limpeza e de um madrugador que ia lá fazer um vídeo para o TikTok ninguém entra e sai do gabinete e o gabinete é vandalizado durante a noite. Posta de lado a hipótese de ter sido o homem que saiu do gabinete no dia anterior, cuja probidade é à prova de bala, só resta uma hipótese, por exclusão de partes: se não foi o homem do TikTok (era incapaz disso) foi o fantasma de Rosa Bugairido!

Acreditamos nesta.

(É sabido que os fantasmas são muito sentimentais e gostam de voltar aos lugares onde foram felizes. E é precisamente o caso do fantasma de Rosa Bugairido.)

Um filme cheio de intrigas, histórias de saias, política, polícia, maçonaria e muito mais!

Porém, qualquer semelhança com a realidade (notícias em baixo) é pura coincidência.

A não perder, lá para Novembro! (juntamente com outra estreia: “A Judiciária, o empreiteiro, o tanque e o atrelado da droga”)(4)



(1. As notícias, parecidas, mas que nada têm a ver com o filme: a) «Assalto ao Chega: vandalismo ou golpe de teatro?» (“O gabinete de André Ventura apareceu revolvido (manhã de Terça-feira, dia 28) e terão desaparecido documentos. Há detalhes que não batem certo e fica a dúvida: assalto ou encenação.”) – Observador de 2026/07/29;

b) «Vandalismo ou encenação: o que se passou no gabinete de André Ventura no Parlamento» (COM O VÍDEO – “O líder do Chega diz que o seu gabinete no Parlamento foi vandalizado e que documentos e pens importantes desapareceram.”) – SIC Notícias de 2026/07/28;

c) «Deputado do Chega encontrou empregada da limpeza e um agente quando entrou no gabinete» (COM O VÍDEO – “O deputado do Chega Francisco Gomes conta que quando chegou à Assembleia da República na manhã de terça-feira encontrou “uma empregada de limpeza e um agente” no gabinete do Chega que foi remexido durante a noite.”) – SIC Notícias de 2026/07/29;

d) «Gabinete de André Ventura no parlamento vandalizado. Porta não foi forçada» (COM O VÍDEO – “O gabinete do presidente do partido Chega, André Ventura, na Assembleia da República, em Lisboa, foi esta terça-feira de manhã (dia 28 de Julho) encontrado vandalizado. A porta do gabinete, sabe o CM, não foi rebentada nem sequer forçada e terá sido uma empregada de limpeza a verificar o vandalismo e a alerta a GNR. O deputado do Chega, Francisco Gomes, eleito pelo círculo eleitoral da Madeira, foi o primeiro elemento do partido a chegar. A Polícia Judiciária foi chamada a investigar o caso.”) – Correio da Manhã de 2026/07/28;


e f) «Polícia Judiciária fez novas diligências no gabinete de André Ventura» (“A Polícia Judiciária (PJ) regressou esta quarta-feira ao gabinete do presidente do Chega no Parlamento, depois de ontem lá ter estado para recolher indícios de prova, nomeadamente impressões digitais.”) – SIC Notícias de 2026/07/29;


3. Rosa Bugairido: Madeira de Buxo (Madera de Boj (1999)), de «Camilo José Cela»;


5. Nota: composição a partir de fotografia existente na Web (o gabinete) e desenho do autor do fantasma de Rosa Bugairido, misturados depois no Nano Banana (Gemini).)

Thursday, January 14, 2016

O fantasma de Rosa Bugairido

«(…) Rosa Bugairido suicidou-se atirando-se ao mar, quando ia no ar nem lhe deu tempo para pensar em nada porque os ouvidos começaram-lhe a zumbir, isto não é mais do que uma suposição, todos nós gostaríamos de conhecer o mistério da morte, o que se passa é que Deus é muito calado e não costuma dizer as coisas aos homens, provavelmente é isto que é o livre arbítrio e todos nós nos queimamos com a dúvida como um prego a arder (…), o meu tio Knut Skien caça o rorqual com artes antigas e faz experiências de física recreativa queimando fósforos debaixo de água.» - Madeira de Buxo (Madera de Boj, 1999), de Camilo José Cela.

É o fantasma de Rosa Bugairido, que agora aparece vestida de noiva.



Rosa Bugairido suicidou-se, já se sabe, e o Marreco abandonou a casa, anda a passear pelo mundo e nunca mais foi o mesmo, não tem descanso, constantemente vê Rosa Bugairido, quer dizer, o seu fantasma, a última vez que a viu estava vestida de noiva mas ninguém acreditou, disseram que era coisa da imaginação, remorsos, o que explicava tudo, mas o Marreco não desistiu e provou que tinha razão, aí estava, em papel, o fantasma de Bugairido, vestida de noiva como no dia do seu casamento, a coisa bate certo, pois é verdade que alguns mortos, e sendo mulheres ainda mais, são muito sentimentais. (segundo o Livro de Estilo de Camilo José Cela)


(1. Pormenores do suicídio de «Rosa Bugairido» (neste «blog»); 2. «Camilo José Cela» - Wikipedia)

Wednesday, February 19, 2020

Se Homarus não tem sangue azul pelo menos tem patas azuis!

Plínio, O Velho, morreu durante a erupção do Monte Vesúvio em 79 d.C. e deixou para a posteridade a mandíbula mas não é certo que seja a dele. Rosa Bugairido suicidou-se mil novecentos e tal anos depois. O suposto crânio de Plínio, O Velho, repousa no Museu Histórico Nacional Dell'Arte Sanitaria de Roma com a seguinte etiqueta: "Crânio das escavações de Pompéia e atribuído a Plínio". Já o de Rosa Bugairido está desaparecido no fundo do mar. Dela apenas se viu um olho e parte dos miolos que ficaram colados aos percebes da maré baixa e se foram com a maré alta. Não há, pois, qualquer etiqueta dela.

Chamaram os isótopos e vêm agora dizer que o queixo do dito Plínio pertence a um escravo africano. Faz sentido, pois histórias dizem que Plínio pediu a um escravo que lhe acelerasse a sua morte no calor agonizante e, assim, provavelmente os seus ossos misturaram-se com os do escravo no fragor da desgraça. De modo que não temos um Plínio mas meio Plínio. Uma espécie híbrida com etiqueta plausível?

Homarus, que se diz fidalgo dos sete costados, o último dos últimos do Velho do Restelo, saltaria da mortalha se a sua etiqueta se confundisse com a de um caranguejo, bicho plebeu. Não que não fosse merecido, atendendo à carranca que tem. Mas os restos mortais de Homarus, conhecido por ser pistoleiro rancoroso, cheio de presunção e água benta e mau como as cobras, totó com as crustáceas de soalheiro - e isto espanta! -, salteador de rochedos, que são os quintais lá do sítio, exímio em rasteiras e pancada, misturados com os de um vulgar caranguejo até dava vontade de rir.

Homarus, o Lavagante de Patas Azuis.
Mas dizem: Ah, isso, esse, um ser desses não existe! Existe, sim senhor.

É o Lavagante de Patas Azuis! E, como podem ver, se Homarus não tem sangue azul pelo menos tem patas azuis!


(1. Sobre o crânio de Plínio, O Velho: «Here Lies the Skull of Pliny the Elder, Maybe» - The New York Times de 2020/02/14;

2. Um parente de Homarus: «Homarus gammarus» - Wikipedia;

3. Dicionário: a) "Ser um Velho do Restelo": ser conservador, resistente a mudanças; personagem de Luís Vaz de Camões na sua obra “Os Lusíadas” (Canto VI); b) "Mortalha": lençol ou túnica que envolve um cadáver; c) "Carranca", aqui, no texto: rosto sombrio, carregado; cara de mau humor; d) O provérbio "Presunção e água benta, cada qual toma a que quer": não há limites para a vaidade, para a soberba; e) "Totó", no sentido do texto: nabo; palerma; pateta; tanso; f) "Crustáceas de soalheiro", por analogia com "mulheres de soalheiro": mulheres coscuvilheiras;

4. «Rosa Bugairido» neste «blog»: alusão a Madeira de Buxo (Madera de Boj (1999)), de Camilo José Cela.)

Wednesday, August 19, 2015

Rosa Bugairido



(1. «Rosa Bugairido suicidou-se há coisa de três anos atirando-se ao mar da falésia do cabo Vilán, um olho e parte dos miolos ficaram colados aos percebes da maré baixa, o cadáver levou-o o mar para a grande praia de Traba, onde esteve encalhado há já alguns anos um raro cachalote com cornos, ao norte da ponta de Laxe.» - «in» Madeira de Buxo (Madera de Boj (1999)), de Camilo José Cela; 2. A propósito: «Camilo José Cela» e, já agora, «Pollicipes pollicipes» - Wikipedia; 3. Composição, em cima, a partir de imagens disponíveis na Web: no caso, o inspector Clouseau.)

Tuesday, October 22, 2024

Caranguejo-Real

Lançados pelos russos no Mar de Barents para alimentação local, os caranguejos-reais(*) desceram para as águas do Mar da Noruega e Mar do Norte e daqui chegaram à Grã-Bretanha, ouvi na televisão, mas também sei disto porque os vi quando dei de caras com o olho da Rosa Bugairido nas rochas, no meio dos mexilhões, e, garanto-te, são autênticos bulldozers dos mares, um metro e oitenta de envergadura e doze quilos de peso, tanto, é o que te digo, por onde passam escavam tudo e devoram os ouriços-do-mar e as estrelas-do-mar e o que encontram à sua frente, enquanto dizia isto Caralhuda de Valadouro(**) deu um toque com o dedo no smartphone e Carmela Conacha Brava(**) foi à boleia, é sabido que as senhoras fazem várias coisas ao mesmo tempo, as duas com as caras iluminadas pelo luar dos aparelhos, pois já era lusco-fusco, está aqui, Caralhuda sorria, o mapa é o mesmo, e mostrou, estas são as águas do Império Anglo-Escandinávico, nas primeiras décadas do século onze, aos anos que vai, e as coisas que tu sabes, é só procurar Carmela, diz aqui que Canuto era o filho mais novo do rei dinamarquês Sueno Barba-Bifurcada, eles inventam cada nome, Carmela parecia que não ouvia, ou não estava interessada, mas ainda assim disse, os nossos não são melhores, e mais, olha a foto que a Beatriz publicou do filho, parece o Antero de Quental, tem mais dois, um rapaz e uma rapariga, e apontava, aqui ele, a mulher e os buzicos, de férias nas Canárias, também ganham bem, Caralhuda não despegava, queria voltar ao assunto, sim, algum devem ter, mas se fosse para as águas do Mar do Norte...



(1. Caranguejo-Real: a) «Red king crab» (Caranguejo-Real Vermelho ou Caranguejo-Real do Alasca) - Wikipedia; e b) «Caranguejo do Alaska» (três variedades entre as quais o Caranguejo-Real) - AlaskaSeaFood; 2. «Mar do Norte» - Wikipedia; 3. «Império do Mar do Norte» - Wikipedia; 4. Fotografia da emissão de “Mares em Movimento: Maravilhas do Mar do Norte”, RTP 2, T.1 Ep.2, 2024/10/02.)

(*) Os caranguejos-reais são nativos do Mar de Bering, Golfo do Alasca, Mar de Okhotsk e Mar do Japão.
(**) “A Cruz de Santo André”, 1994, Camilo José Cela; escrito (quase) segundo o livro de estilo de Camilo José Cela.