... mas como era um optimista por natureza não se cansava de gracejar:
«até ao fim do abecedário ainda falta muito!»
(1. Acidente vascular cerebral - Wikipedia; 2. «De Profundis, Valsa Lenta» de José Cardoso Pires «in» Letras & Letras; 3. José Cardoso Pires «in» Projecto Vercial; 4. «Nas palavras do próprio... De Profundis, Valsa Lenta» (entrevista de Maria Teresa Horta) - C.I.T.I.)
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Wednesday, May 30, 2007
Tuesday, December 27, 2011
Em enterro de cão, gato não chora
Do conto “Lulu” em “A República dos Corvos”, de José Cardoso Pires:
«Durante algum tempo pensei que aquele ódio ao meu amigo viesse da simpatia que ele tinha pelos gatos. Ou que devia ter, não sei. Nunca falámos sobre o assunto mas nada mais natural que um tradutor de T. S. Eliot gostasse de gatos, uma vez que tratava com eles por escrito e a vários nomes, gato Augustus, gato Alonzo, gato Roly-Poly, e se gostava era coisa que não poderia passar despercebida a um lobo d’alsácia tão ortodoxo como o Duque. Em enterro de cão, gato não chora – princípios destes nunca esquecem, não é assim? E tratando-se de gatos famosos na lenda e famosos na rima, pior ainda.»
Antigamente, cão e gato que se dessem eram uma aberração. Hoje é vê-los no You Tube, para gáudio de crianças, adultos e mais velhos, de pata dada, rechonchudos, peludos, numa resignação como só há muito, muito tempo, se viu na história da arca de Noé que juntou um animal de cada espécie lado a lado. Neste céu dos nossos pensamentos ainda lá estão o cordeiro e o lobo, a impala e o leão coexistindo pacificamente, amigo com inimigo!
Onde está o pêlo eriçado, o bigode no ar, o gatázeo espetado? O arrelia-cães, aquela coisa fina e nobre que manda às urtigas o dono que não lhe dê aparas e leite?
Onde está o pêlo-de-cão a cheirar a queijo que tresanda, o dente arreganhado? O mata-gatos, velho sabujo sevandija?
Pacificaram-se. Perderam-se.
Assim, ainda vamos ver em enterro de cão gato a chorar!
(José Cardoso Pires neste «blog»)
«Durante algum tempo pensei que aquele ódio ao meu amigo viesse da simpatia que ele tinha pelos gatos. Ou que devia ter, não sei. Nunca falámos sobre o assunto mas nada mais natural que um tradutor de T. S. Eliot gostasse de gatos, uma vez que tratava com eles por escrito e a vários nomes, gato Augustus, gato Alonzo, gato Roly-Poly, e se gostava era coisa que não poderia passar despercebida a um lobo d’alsácia tão ortodoxo como o Duque. Em enterro de cão, gato não chora – princípios destes nunca esquecem, não é assim? E tratando-se de gatos famosos na lenda e famosos na rima, pior ainda.»
Antigamente, cão e gato que se dessem eram uma aberração. Hoje é vê-los no You Tube, para gáudio de crianças, adultos e mais velhos, de pata dada, rechonchudos, peludos, numa resignação como só há muito, muito tempo, se viu na história da arca de Noé que juntou um animal de cada espécie lado a lado. Neste céu dos nossos pensamentos ainda lá estão o cordeiro e o lobo, a impala e o leão coexistindo pacificamente, amigo com inimigo!
Onde está o pêlo eriçado, o bigode no ar, o gatázeo espetado? O arrelia-cães, aquela coisa fina e nobre que manda às urtigas o dono que não lhe dê aparas e leite?
Onde está o pêlo-de-cão a cheirar a queijo que tresanda, o dente arreganhado? O mata-gatos, velho sabujo sevandija?
Pacificaram-se. Perderam-se.
Assim, ainda vamos ver em enterro de cão gato a chorar!
(José Cardoso Pires neste «blog»)
Friday, December 09, 2011
A propósito de um par de botas
Do conto «Os Reis-Mandados», em «O Burro-em-Pé», de José Cardoso Pires:
Dois homens e uma mulher deleitavam-se a discorrer sobre as virtualidades de umas botas e o engenho do sapateiro que as fez, a qualidade do material, o seu cheiro. E concluíram (pelo menos um deles) que o Janico ("João Janico, Perninhas de Lebre, Orelhas em Bico"), com umas botas assim, "sem um nervo, sem uma dobra a desfear o couro", ia «ficar com calçado para a vida e para a morte».
Aí está uma boa maneira de não ficar de mal com a morte: ir bem calçado, ir bem apessoado, com barba feita, estar cinco estrelas na hora do velório para ter entrada directa no Purgatório! «ÁMEN»
(A propósito: «José Cardoso Pires» - Wikipedia)
Dois homens e uma mulher deleitavam-se a discorrer sobre as virtualidades de umas botas e o engenho do sapateiro que as fez, a qualidade do material, o seu cheiro. E concluíram (pelo menos um deles) que o Janico ("João Janico, Perninhas de Lebre, Orelhas em Bico"), com umas botas assim, "sem um nervo, sem uma dobra a desfear o couro", ia «ficar com calçado para a vida e para a morte».
Aí está uma boa maneira de não ficar de mal com a morte: ir bem calçado, ir bem apessoado, com barba feita, estar cinco estrelas na hora do velório para ter entrada directa no Purgatório! «ÁMEN»
(A propósito: «José Cardoso Pires» - Wikipedia)
Tuesday, January 03, 2012
«Dia de São Bartolomeu e do Anjo Satanás»
Zig e Zag falam do dia em que São Bartolomeu e Satanás andam de mãos dadas (24 de Agosto) e dos cuidados que há a ter por causa disso (cartoon):
(1. «Satanás» ("Satanás", "Diabo" e "Lúcifer") - Wikipedia; 2. «São Bartolomeu» - idem e «Dia de São Bartolomeu, quando o Diabo anda solto pela Terra»: «(...) a crença popular, principalmente no Nordeste brasileiro, acredita que no seu dia, exatamente 24 de agosto, o Diabo anda solto pela Terra aprontando e fazendo malvadezes.»; «E um dos fatos históricos mais chocantes da intolerância religiosa foi o assassinato de milhares dos protestantes pelos católicos, em Paris, na França, na noite de 24 para 25 de agosto de 1572. O ato de violência ficou conhecido como o Massacre da Noite de São Bartolomeu.» - Lá está o Diabo, o Satanás, o Mafarrico, faz das dele e depois foge com o rabo à seringa, deixa a assinatura para os outros... - «in» vírgula.uol.com.br; 3. A propósito: «Estes casos passaram-se e foram testemunhados. Tiveram lugar no lado de lá da Terranostra, a muitas léguas do Reino, por ocasião da perda da última feitoria imperial e na manhã duma sexta-feira, dia de São Bartolomeu e do Anjo Satanás» - Do conto «Dinossauro Excelentíssimo» em «O Burro-em-Pé», de José Cardoso Pires; 4. Também é o dia dos mercadores de Florença, segundo a Wikipedia)
(1. «Satanás» ("Satanás", "Diabo" e "Lúcifer") - Wikipedia; 2. «São Bartolomeu» - idem e «Dia de São Bartolomeu, quando o Diabo anda solto pela Terra»: «(...) a crença popular, principalmente no Nordeste brasileiro, acredita que no seu dia, exatamente 24 de agosto, o Diabo anda solto pela Terra aprontando e fazendo malvadezes.»; «E um dos fatos históricos mais chocantes da intolerância religiosa foi o assassinato de milhares dos protestantes pelos católicos, em Paris, na França, na noite de 24 para 25 de agosto de 1572. O ato de violência ficou conhecido como o Massacre da Noite de São Bartolomeu.» - Lá está o Diabo, o Satanás, o Mafarrico, faz das dele e depois foge com o rabo à seringa, deixa a assinatura para os outros... - «in» vírgula.uol.com.br; 3. A propósito: «Estes casos passaram-se e foram testemunhados. Tiveram lugar no lado de lá da Terranostra, a muitas léguas do Reino, por ocasião da perda da última feitoria imperial e na manhã duma sexta-feira, dia de São Bartolomeu e do Anjo Satanás» - Do conto «Dinossauro Excelentíssimo» em «O Burro-em-Pé», de José Cardoso Pires; 4. Também é o dia dos mercadores de Florença, segundo a Wikipedia)
Wednesday, August 14, 2013
Um grande ladrão!
Era bom em tudo quanto fosse jogo. Ainda fedelho, no jogo das escondidas – tempos de nada que fazer que aproveitava para assaltar os quintais dos vizinhos. Já matulão, no jogo de mãos com que maravilhava garinas, justificando o nome de O Chouriço ou O Sovaqueiro por que ficou conhecido durante uns tempos. Logo aí se viciou no jogo do bicho e outros jogos até se fazer homem de barba rija, uma vida de amantes e pequena fortuna. Com o dom da palavra e tanta unha na palma progrediu e fez carreira na Bolsa, aí se reformando da velha vida. E é vê-lo agora pacato cidadão, fato e gravata e sapato a luzir, a passear mulher e filhos e o cão...
Foi vida em grande, em crescendo, apenas aqui e ali um deslize: vida cheia de aventuras de um grande ladrão, porém homem cotadíssimo!
(1. Dicionário:
Fedelho: criança que ainda fede a cueiros; rapaz muito novo; criança.
Jogo das escondidas: brincadeira de crianças, em que todas menos uma se escondem para serem procuradas por esta.
Matulão e matulaz: vadio, matula; rapaz encorpado, forte; rapagão.
Jogo de mãos: sortes de prestidigitação.
Garina: chavala; rapariga; mulher jovem; namorada. «(…) Aí sim, dava mais trabalho mas tirava-se proveito. Aí os vampiros de Almirante Reis, de Chelas ou do Intendente podiam encontrar garinas a preceito: costureirinhas de boa-fé, adolescentes despassaradas, garotas de galderice – tudo material de bom alcance para converter aos lençóis da chamada má-vida que afinal ainda é a melhor desde que bem orientada por alguém de saber e de maneiras (…)» - José Cardoso Pires «in» A Cavalo no Diabo.
Carteirista: “Carteiro”, “choro” ou “chouriço, sovaqueiro
Jogo do bicho: espécie de lotaria clandestina.
Jogo de palavras: trocadilho; frase com ambiguidade de sentido ou que permite mais de um sentido.
Ter unha na palma (linguagem dos carteiristas): ter habilidade para “puxar” (com ch) o “cabedal” (carteira) do “porão” (bolso lateral de um casaco) com um “chino” (canivete) ou outro material cortante.
Jogo da Bolsa: transacções em fundos públicos.;
2. A propósito: «Uma viagem ao delirante mundo dos carteiristas» - Público de 2012/10/09:
«Estima-se que trabalhem em Lisboa 70 carteiristas profissionais, sendo que 20 deles são estrangeiros. Um texto que revela a linguagem usada pelos carteiristas.
A maior parte não consegue passar despercebida ao olhar dos agentes da Divisão de Segurança dos Transportes Públicos, polícias que dispensam diariamente atenção especial aos comboios suburbanos que servem a capital, à rede do metropolitano e a meia dúzia de carreiras de autocarros e eléctricos.
Foi o olho clínico de um agente de investigação criminal da PSP que, no dia 5, junto a uma paragem da carreira 28, na Avenida Infante D. Henrique permitiu a recaptura de um dos mais antigos “carteiros” da cidade.
“Carteiro”, “choro” ou “chouriço” são apenas três dos nomes dados aos carteiristas, classe de delinquentes que possui um dos mais ricos jargões. Não se sabe se o homem, de 55 anos, que a PSP prendeu no último feriado, estaria ou não a “trabalhar” ou a “praticar golfe”, que é como quem diz, na linguagem dos carteiristas, a furtar.
A verdade é que, mesmo não tendo sido notada a presença do “namorado” (um segundo carteirista que ajuda o companheiro durante os furtos), encontrava-se num dos pontos mais vigiados pela polícia. Quando lhe deram voz de prisão resignou-se. Estava evadido da cadeia desde 2010, altura em que foi condenado a cumprir seis meses de prisão em dias livres (cumpridos apenas aos fins-de-semana).
Para “chouriçar” os “carteiros” procuram as “montadas”. O mesmo quer dizer que para praticarem os melhores furtos os carteiristas tentam actuar nos grandes ajuntamentos (transportes públicos, entradas de monumentos ou edifícios muito movimentados, recintos desportivos).
Uma das zonas de Lisboa mais frequentadas pelos carteiristas é da Sé, um “fatio” (zona boa para roubar” sempre bem composta de “guiros” (turistas).
“Livros”, “chatas” ou “cabedais” são os nomes mais dados às carteiras pelos ladrões. Para se chegar às mesmas existem várias técnicas. Primeiro faz-se o “toque de guizo” – um dos “namorados” dá um encontrão na vítima tentando, despercebidamente, para localizar a carteira na respectiva peça de vestuário (no “justo”, se for um casaco, na “lima” ou “mimosa” se se tratar da camisa, nas “justas” se forem as calças).
Localizada a carteira passa-se à fase seguinte. Se estiver num sítio muito protegido a opção mais comum é a do empurrão, do aperto. A vítima é quase prensada (nos transportes) enquanto um “choro”, de “baios”, “drifes”, “bastos” ou “compridos” – nada mais nada menos que os dedos – saca a carteira de modo rápido e imperceptível. Roubada a carteira diz-se, também, ainda na linguagem usada pelos criminosos, que a mesma foi “puchada” (com ch e não com x).
Mas há técnicas mais apuradas, tal como a “sangria”. Se o “cabedal” se encontra no “porão” do “justo” (num bolso lateral de um casaco) e se o “chouriço” tiver “unha na palma”, que é como quem diz habilidade, entra em acção um “chino” (canivete) um bisturi ou até uma tesoura.
O fundo do casaco é cortado (“sangrado”) e a carteira cai direitinha nos “garfos” (nas mãos) de um dos ladrões.
Os carteiristas de Lisboa, que nas décadas de 1960 e 1970 tinha especial predilecção pelas canetas de marca que os homens usavam nos bolsos das camisas (diziam que iam às Rosa Negra – marca de uma camisa cara – quando com o auxílio de um jornal dobrado sacavam habilmente as canetas), socorrem-se muitas vezes das chamadas “muletas”.
A “muleta” não passa de um objecto que serve apenas para ajudar a consumar o furto ou dissimular o objecto furtado. Pode ser um jornal (“folhoso”) uma gabardina ou um chapéu-de-chuva.
Também há carteiristas que escondem o objecto dos furtos nos sovacos. A estes dá-se, com alguma lógica, a alcunha de “sovaqueiros”.
Não se pense, contudo, que os “carteiros” são uma espécie sedentária, que assenta arraiais na zona turística da cidade onde vive e raramente a abandona. Nada disso. A polícia tanto dá com eles nas carreiras 15 e 28 dos eléctricos de Lisboa, como dias depois os localiza nos grandes ajustamentos religiosos. E não é só em Fátima ou nas procissões de algumas cidades nortenhas que no Verão homenageiam a comunidade imigrante que os carteiristas são referenciados. É frequente vê-los noutros santuários (Lourdes, em França) e destinos religiosos (Santiago de Compostela, em Espanha) ou até no Vaticano.Por fim resta acrescentar que a “arte” de roubar carteiras não é um exclusivo dos homens. Em Fátima a polícia identifica com frequência grupos de quatro e cinco mulheres que, mais do que pela fé, são movidas pela gula de “chatas recheadas” (carteiras cheias) que muitas vezes até andam “espontadas”, que é como quem diz colocadas num bolso traseiro (“culatra”) das calças.
No primeiro semestre deste ano a PSP deteve 37 carteiristas só na cidade de Lisboa.»)
Foi vida em grande, em crescendo, apenas aqui e ali um deslize: vida cheia de aventuras de um grande ladrão, porém homem cotadíssimo!
(1. Dicionário:
Fedelho: criança que ainda fede a cueiros; rapaz muito novo; criança.
Jogo das escondidas: brincadeira de crianças, em que todas menos uma se escondem para serem procuradas por esta.
Matulão e matulaz: vadio, matula; rapaz encorpado, forte; rapagão.
Jogo de mãos: sortes de prestidigitação.
Garina: chavala; rapariga; mulher jovem; namorada. «(…) Aí sim, dava mais trabalho mas tirava-se proveito. Aí os vampiros de Almirante Reis, de Chelas ou do Intendente podiam encontrar garinas a preceito: costureirinhas de boa-fé, adolescentes despassaradas, garotas de galderice – tudo material de bom alcance para converter aos lençóis da chamada má-vida que afinal ainda é a melhor desde que bem orientada por alguém de saber e de maneiras (…)» - José Cardoso Pires «in» A Cavalo no Diabo.
Carteirista: “Carteiro”, “choro” ou “chouriço, sovaqueiro
Jogo do bicho: espécie de lotaria clandestina.
Jogo de palavras: trocadilho; frase com ambiguidade de sentido ou que permite mais de um sentido.
Ter unha na palma (linguagem dos carteiristas): ter habilidade para “puxar” (com ch) o “cabedal” (carteira) do “porão” (bolso lateral de um casaco) com um “chino” (canivete) ou outro material cortante.
Jogo da Bolsa: transacções em fundos públicos.;
2. A propósito: «Uma viagem ao delirante mundo dos carteiristas» - Público de 2012/10/09:
«Estima-se que trabalhem em Lisboa 70 carteiristas profissionais, sendo que 20 deles são estrangeiros. Um texto que revela a linguagem usada pelos carteiristas.
A maior parte não consegue passar despercebida ao olhar dos agentes da Divisão de Segurança dos Transportes Públicos, polícias que dispensam diariamente atenção especial aos comboios suburbanos que servem a capital, à rede do metropolitano e a meia dúzia de carreiras de autocarros e eléctricos.
Foi o olho clínico de um agente de investigação criminal da PSP que, no dia 5, junto a uma paragem da carreira 28, na Avenida Infante D. Henrique permitiu a recaptura de um dos mais antigos “carteiros” da cidade.
“Carteiro”, “choro” ou “chouriço” são apenas três dos nomes dados aos carteiristas, classe de delinquentes que possui um dos mais ricos jargões. Não se sabe se o homem, de 55 anos, que a PSP prendeu no último feriado, estaria ou não a “trabalhar” ou a “praticar golfe”, que é como quem diz, na linguagem dos carteiristas, a furtar.
A verdade é que, mesmo não tendo sido notada a presença do “namorado” (um segundo carteirista que ajuda o companheiro durante os furtos), encontrava-se num dos pontos mais vigiados pela polícia. Quando lhe deram voz de prisão resignou-se. Estava evadido da cadeia desde 2010, altura em que foi condenado a cumprir seis meses de prisão em dias livres (cumpridos apenas aos fins-de-semana).
Para “chouriçar” os “carteiros” procuram as “montadas”. O mesmo quer dizer que para praticarem os melhores furtos os carteiristas tentam actuar nos grandes ajuntamentos (transportes públicos, entradas de monumentos ou edifícios muito movimentados, recintos desportivos).
Uma das zonas de Lisboa mais frequentadas pelos carteiristas é da Sé, um “fatio” (zona boa para roubar” sempre bem composta de “guiros” (turistas).
“Livros”, “chatas” ou “cabedais” são os nomes mais dados às carteiras pelos ladrões. Para se chegar às mesmas existem várias técnicas. Primeiro faz-se o “toque de guizo” – um dos “namorados” dá um encontrão na vítima tentando, despercebidamente, para localizar a carteira na respectiva peça de vestuário (no “justo”, se for um casaco, na “lima” ou “mimosa” se se tratar da camisa, nas “justas” se forem as calças).
Localizada a carteira passa-se à fase seguinte. Se estiver num sítio muito protegido a opção mais comum é a do empurrão, do aperto. A vítima é quase prensada (nos transportes) enquanto um “choro”, de “baios”, “drifes”, “bastos” ou “compridos” – nada mais nada menos que os dedos – saca a carteira de modo rápido e imperceptível. Roubada a carteira diz-se, também, ainda na linguagem usada pelos criminosos, que a mesma foi “puchada” (com ch e não com x).
Mas há técnicas mais apuradas, tal como a “sangria”. Se o “cabedal” se encontra no “porão” do “justo” (num bolso lateral de um casaco) e se o “chouriço” tiver “unha na palma”, que é como quem diz habilidade, entra em acção um “chino” (canivete) um bisturi ou até uma tesoura.
O fundo do casaco é cortado (“sangrado”) e a carteira cai direitinha nos “garfos” (nas mãos) de um dos ladrões.
Os carteiristas de Lisboa, que nas décadas de 1960 e 1970 tinha especial predilecção pelas canetas de marca que os homens usavam nos bolsos das camisas (diziam que iam às Rosa Negra – marca de uma camisa cara – quando com o auxílio de um jornal dobrado sacavam habilmente as canetas), socorrem-se muitas vezes das chamadas “muletas”.
A “muleta” não passa de um objecto que serve apenas para ajudar a consumar o furto ou dissimular o objecto furtado. Pode ser um jornal (“folhoso”) uma gabardina ou um chapéu-de-chuva.
Também há carteiristas que escondem o objecto dos furtos nos sovacos. A estes dá-se, com alguma lógica, a alcunha de “sovaqueiros”.
Não se pense, contudo, que os “carteiros” são uma espécie sedentária, que assenta arraiais na zona turística da cidade onde vive e raramente a abandona. Nada disso. A polícia tanto dá com eles nas carreiras 15 e 28 dos eléctricos de Lisboa, como dias depois os localiza nos grandes ajustamentos religiosos. E não é só em Fátima ou nas procissões de algumas cidades nortenhas que no Verão homenageiam a comunidade imigrante que os carteiristas são referenciados. É frequente vê-los noutros santuários (Lourdes, em França) e destinos religiosos (Santiago de Compostela, em Espanha) ou até no Vaticano.Por fim resta acrescentar que a “arte” de roubar carteiras não é um exclusivo dos homens. Em Fátima a polícia identifica com frequência grupos de quatro e cinco mulheres que, mais do que pela fé, são movidas pela gula de “chatas recheadas” (carteiras cheias) que muitas vezes até andam “espontadas”, que é como quem diz colocadas num bolso traseiro (“culatra”) das calças.
No primeiro semestre deste ano a PSP deteve 37 carteiristas só na cidade de Lisboa.»)
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